Ouvir música antes de uma prova melhora o desempenho?

Brasil bate EUA nos 4x200m livre, e Thiago Pereira fica a uma medalha de novo recorde
16 de julho de 2015
Faça a virada perfeita no nado costas
18 de agosto de 2015
Show all

Ouvir música antes de uma prova melhora o desempenho?

Por Ester Mendes

Nos últimos dias, pudemos acompanhar dois eventos importantes para a natação de alto rendimento: os Jogos Panamericanos em Toronto e o Mundial de Esportes Aquáticos em Kazan. Enquanto aguardavam a chamada para a sua série, os nadadores permaneciam concentrados em uma sala e durante 5 ou 10 minutos; alguns permaneciam em silêncio e outros utilizavam fones de ouvido. Mas será ouvir música antes de uma prova realmente tem algum efeito sobre o desempenho dos atletas?

O efeito ergogênico da música tem sido bastante estudado em diversas modalidades e diferentes intensidades de exercício. Até o momento, há evidências científicas de que ouvir música antes de uma prova interfere positivamente sobre estados de humor, redução do esforço percebido, melhora da técnica de movimento, aumento do estado de máxima concentração (flowstate) e nível de prontidão.

Em um trabalho publicado em 2014 no “The Journalof Sports Medicine and Physical Fitness”, os pesquisadores Bruno Paula Caraça Smirmaul (Departamento de Educação Física da UNESP Rio Claro) Regiany Valeria dos Santos e Luiz Vieira da Silva Neto (Departamento de Ciências do Esporte UNICAMP) selecionaram dezoito nadadores de nível regional (média de idade = 26 +/- 4 anos; altura = 1,78m +/- 7cm; peso = 78 +/- 7 kg; média de tempo de treinamento = 2,6 +/- 2,8 anos) e verificaram o tempo de nado quando a tarefa de nadar 200m crawl (em velocidade) era precedida por uma pré-tarefa que apresentava duas condições distintas: a) 5 minutos de concentração em silêncio e sentado; b) 5 minutos ouvindo música em um aparelho de MP3 com fones, também sentado.As músicas foram selecionadas pelos próprios nadadores, de acordo com a preferência e percepção deles do que seria o tipo de música mais semelhante às características da prova. Todos os nadadores foram orientados a não consumirem bebidas ou alimentos contendo cafeína e evitar exercícios vigorosos 48 horas antes da realização do experimento. A prova de 200m livre foi realizada em uma piscina de 25 metros, com água a 270. A cronometragem foi feita utilizando-se um cronômetro Casio HS3, com precisão de 0,01 segundo. Imediatamente após nadar e antes de sair da piscina, os atletas responderam a três escalas: percepção de esforço, valência afetiva (prazer ou desprazer) e humor.

A distribuição dos participantes na pré-tarefa foi contrabalanceada, isto é, metade dos participantes realizou primeiro a condição “a” e metade realizou primeiro a condição “b”. Nesse tipo de protocolo experimental, todos os participantes são testados em todas as condições;essa forma de alternância das condições experimentaisdiminui a chance de interferências de outros fatores ou efeito placebo. Veja nas tabelas 1 e 2, o detalhamento do protocolo experimental:

Tabela 1: Esquematização do protocolo experimental

Dia1

Tabela 2: Escalas de motivação, prontidão e humor

tabela2

Os resultados mostraram que a média de tempo do grupo foi significativamente menor quando a pré-tarefa incluía a música (192,17 +/- 31,58 seg.) em comparação ao silêncio (195 +/- 32,4 seg.) e que o tempo individual foi menor para 14 dos 18 atletas. A música também interferiu positivamente sobre a motivação: os nadadores relataram maior motivação tanto antes quanto após nadar 200m crawl, quando a pré-tarefa foi ouvir música. Esse fato está diretamente relacionado ao tempo de nado (quanto maior a motivação, melhor o tempo de prova). No entanto, estado de prontidão,humor epercepção de esforço não foram diferentes entre as duas condições estudadas.

Embora a diferença de tempo encontrada possa parecer pequena em valores absolutos (2,67 seg.) ou em porcentagem (1,44%), se ocorresse, por exemplo, na final dos Jogos Olímpicos de Londres (2012), já teria sido suficiente para levar Paul Biederman da 5º para a 1º colocação. Naquela competição, Paul Biederman fez o tempo de 1’45”53 enquanto o primeiro colocado, YanicAgnel, terminou os 200m livre com 1’43”14. Porém, os pesquisadores destacam que os resultados encontrados por elesreferem-se a nadadores de nível regional e que não permitempredizer se uma pré-tarefa com audição de música provocaria o mesmo efeito em nadadores de nível olímpico.

De acordo com os autores, esse foi o primeiro estudo realizado sobre o efeito ergogênico da música como pré-tarefa em nadadores (outros estudos avaliaram somente o efeito da música durante o nado em distâncias maiores) e, nesse caso, a melhora do tempo foi atribuída ao aumento da motivação. Avanços nas pesquisas sobre redes neurais e mecanismos associados com respostas emocionais à música, combinados com técnicas como a estimulação cerebral e a autofala (ou conversa interna), podem contribuir para o desenvolvimento de novas estratégias para melhorar o desempenho esportivo.

Link para o artigo na íntegra:

http://www.researchgate.net/publication/266745631_Pre-task_music_improves_swimming_performance

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *